hmmmm..........
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
A minha nova professora... :-)
terça-feira, 12 de junho de 2012
A pedido
Olá... Aqui estou a escrever-te, como prometido. Embora sem nada a dizer. Esta tem sido uma semana cinzenta. Uma semana suspensa. As horas passam na sua sequência habitual, sem que com elas passe qualquer vida. Nenhuma existência, nenhum ímpeto. Apenas o tempo na sua marcha inexorável, apenas as horas. E a minha imobilidade perante elas, a minha impotência.
Entrecortando essa cortina cinzenta, rompem memórias mal semeadas, como cogumelos rebentando a terra. São fortes, gritantes, enraivecidas, inconformadas com a injustiça do que aconteceu. Do que deixei acontecer. Rasgam-me por dentro, coração peito e estômago, esfanicam-me os músculos em estertores trémulos até à inacção, torcem-me a face em esgares e sulcam-ma de lágrimas. Não há Paz. Há o que existiu, a beleza doçura e sabedoria do que existiu, e há o fim abrupto e sem aviso, o fim que eu não soube impedir, nem explicar a quem se viu partir assim. "Pensei que estava a ajudar" é a única frase que balbucio nesses momentos, e a que acorda em mim maior desprezo, maior raiva. Porque é uma desculpa estúpida. Porque eu devia ter sabido. Porque não há como repôr, como trazê-la de volta. Porque esta morte foi uma parede que se ergueu no meu caminho sem sentido, a tentar impedir-me de seguir obliviamente. Mas que me faz sentir, no fundo, a cada instante, que não mereço sequer poder seguir.
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quarta-feira, 6 de junho de 2012
...ainda e sempre, a Morte.
Porque é que a morte não me larga? O que é que ela me quer, raios? ...ensinar-me que não sou ninguém mas ao mesmo tempo que tenho de me respeitar mais, sob pena de irem morrendo por inacção minha os seres que mais amo?
Porque é que me deixei convencer? Porque é que a deixei ir, apesar de sentir que não devia? Sem sofrimento, sem doença aparente, sem qualquer preparação ou pré-aviso... Sobram demasiadas memórias pela casa, a impotência do que já se fez e não tem retorno, a inocência e devoção com que estes bichos acreditam em mim para os proteger. E eu a falhar-lhes, como em tudo.
Já não tenho forças para arrepiar a pulso todo o caminho que não fiz e tornar-me o que devia ter sido. Não parece sequer possível. E no entanto a vida anda nisto, a rebentar comigo para cima e para baixo, como se me quisesse fazer uma massagem cardíaca extrema para me acordar do meu torpor desalentado... e eu gostava que funcionasse, a tal massagem, mas já devo estar tipo cadáver a observar de fora as voltas da minha existência e a pensar incrédula "porquê? para quê tudo isto? ...eu podia tê-la ajudado, se tivesse sido o que não fui. Mas não fui, não sou... então porquê insistir nessa ideia? Para quê continuar a confrontar-me com desafios que não posso vencer? Porque é que não desistes simplesmente de mim e páras de fazer sofrer tudo e todos com as minhas falhas?"
E dito isto, o cadáver que sou regressa ao seu buraco-túmulo, até que um outro sonho qualquer o volte a puxar para cima, só um pouquinho basta, para que a vida possa voltar a atropelá-lo com alguma emoção avassaladora, e a dizer-lhe "it isn't over yet". E infelizmente, é verdade.
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quarta-feira, 9 de maio de 2012
O pardal
Monday, April 30, 2012 at 16:36
Há muito mais heroísmo numa morte lenta. E eu não sou cobarde. Quando vier, hei-de aguentá-la ao seu tempo, consciente da passagem, consciente do meu papel aqui, do meu percurso e direcção, do meu impacto nos outros, da minha natureza. Consciente, feliz, e a aprender, sempre.
O pardalito caiu do ninho. Por dentro, nenhum dos seus órgãos aguentou a queda. Havia sangue por todo o lado naquele corpinho arquejante. As dores só por si chegariam para me prostrar... mas ele continuou a lutar pela vida. Pouco se mexia, mas estremecia a cada dentada do batalhão de formigas que começara a devorá-lo vivo. Limpei-lhas, mas percebi que estava em sofrimento. Que não sobreviveria. Estávamos prestes a partir, mas não podia deixá-lo ali a ser devorado vivo... E não podia trazê-lo para as acidentadas pistas que iríamos percorrer... Não me ocorreu que ele preferisse morrer devagar e naturalmente. Quis ajudá-lo, impedir aquela tortura gratuita. Mas não sabia como matá-lo de forma rápida e indolor. Tentei afogá-lo, durante um eterno minuto. Quando sentiu a cabeça fora de água, agitou-se de novo. Segundo mergulho. Mais longo, até o meu coração rebentar. Sairam-lhe bolhas de ar pelas narinas. Aguentei mais um pouco. Quando saiu da água, abriu o biquinho... e desabei. Como é que te vou ajudar, pardalito? Dei-lhe colo, a ele e ao irmão maiorzito que também caíra, e por momentos o mundo voltou a fazer sentido. Soprei as formigas que restavam nos seus corpos e que iam começando a afastar-se, sentindo a minha presença. Mas continuava sem saber o que fazer. Os carros estavam quase todos prontos para a saída. Passou o Acácio e ofereceu-se para os matar, com uma centelha de prazer nos olhos que me pareceu estranha, desadequada. Neguei, mas acabei por achar que era a melhor forma de terminar rapidamente com o sofrimento... e disse que sim. Ele ficou com o maior e deu o meu pequeno lutador ao Marco: "Um para mim, outro para ti." Foram segundos até me entregar o corpinho inerte do pardalito maior. Já frio... como é possível? Já desabitado. Acarinhei-o e devolvi-o ao canteiro das formigas. Fui ter com o Marco, que comprimia com visível aflição a carótida do pequeno lutador. E ele continuava vivo... "Já deve estar..." disse-me o Marco, o olhar em desespero. O coração dele também já não aguentava mais. Concordei e fiquei com o pequeno nas mãos de novo. Senti de repente toda a aflição por que passara na última hora. Senti o desejo que tinha de crescer e voar. E por momentos quis dar-lhe a minha vida. Tenho a certeza de que a aproveitaria bem melhor do que eu...
Foi o segundo bicho a ensinar-me a morrer com dignidade. Tentei tranquilizá-lo, dei-lhe todo o meu carinho e amor e aninhei-o num tufo de ervas mais altas, procurando conquistar tempo às formigas, mais uns minutos de morte sossegada. Esperando que fossem suficientes. Corri, já o último carro saía o portão, fazendo de conta que me esqueceria, que a morte de um pardal não tinha qualquer importância, como dizem... Mas sentia, ainda sinto no coração, o peso daquela morte. O que aprendi com ele, poucas pessoas o conseguiriam ensinar, e raros são os que o entendem. E sei que nunca o vou esquecer. Só espero um dia vir a estar à sua altura...
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