terça-feira, 12 de junho de 2012

A pedido


Olá... Aqui estou a escrever-te, como prometido. Embora sem nada a dizer. Esta tem sido uma semana cinzenta. Uma semana suspensa. As horas passam na sua sequência habitual, sem que com elas passe qualquer vida. Nenhuma existência, nenhum ímpeto. Apenas o tempo na sua marcha inexorável, apenas as horas. E a minha imobilidade perante elas, a minha impotência.
Entrecortando essa cortina cinzenta, rompem memórias mal semeadas, como cogumelos rebentando a terra. São fortes, gritantes, enraivecidas, inconformadas com a injustiça do que aconteceu. Do que deixei acontecer. Rasgam-me por dentro, coração peito e estômago, esfanicam-me os músculos em estertores trémulos até à inacção, torcem-me a face em esgares e sulcam-ma de lágrimas. Não há Paz. Há o que existiu, a beleza doçura e sabedoria do que existiu, e há o fim abrupto e sem aviso, o fim que eu não soube impedir, nem explicar a quem se viu partir assim. "Pensei que estava a ajudar" é a única frase que balbucio nesses momentos, e a que acorda em mim maior desprezo, maior raiva. Porque é uma desculpa estúpida. Porque eu devia ter sabido. Porque não há como repôr, como trazê-la de volta. Porque esta morte foi uma parede que se ergueu no meu caminho sem sentido, a tentar impedir-me de seguir obliviamente. Mas que me faz sentir, no fundo, a cada instante, que não mereço sequer poder seguir.



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quarta-feira, 6 de junho de 2012

...ainda e sempre, a Morte.


Porque é que a morte não me larga? O que é que ela me quer, raios? ...ensinar-me que não sou ninguém mas ao mesmo tempo que tenho de me respeitar mais, sob pena de irem morrendo por inacção minha os seres que mais amo?
Porque é que me deixei convencer? Porque é que a deixei ir, apesar de sentir que não devia? Sem sofrimento, sem doença aparente, sem qualquer preparação ou pré-aviso... Sobram demasiadas memórias pela casa, a impotência do que já se fez e não tem retorno, a inocência e devoção com que estes bichos acreditam em mim para os proteger. E eu a falhar-lhes, como em tudo.
Já não tenho forças para arrepiar a pulso todo o caminho que não fiz e tornar-me o que devia ter sido. Não parece sequer possível. E no entanto a vida anda nisto, a rebentar comigo para cima e para baixo, como se me quisesse fazer uma massagem cardíaca extrema para me acordar do meu torpor desalentado... e eu gostava que funcionasse, a tal massagem, mas já devo estar tipo cadáver a observar de fora as voltas da minha existência e a pensar incrédula "porquê? para quê tudo isto? ...eu podia tê-la ajudado, se tivesse sido o que não fui. Mas não fui, não sou... então porquê insistir nessa ideia? Para quê continuar a confrontar-me com desafios que não posso vencer? Porque é que não desistes simplesmente de mim e páras de fazer sofrer tudo e todos com as minhas falhas?"
E dito isto, o cadáver que sou regressa ao seu buraco-túmulo, até que um outro sonho qualquer o volte a puxar para cima, só um pouquinho basta, para que a vida possa voltar a atropelá-lo com alguma emoção avassaladora, e a dizer-lhe "it isn't over yet". E infelizmente, é verdade.


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